A carga invisível da maternidade

Talvez o problema não seja equilibrar melhor os pratos. Talvez sejam pratos demais.

Não sei se vocês perceberam, mas eu andei um pouco mais ausente daqui.

A verdade é que, nos últimos meses, eu simplesmente não tenho conseguido equilibrar tantos pratos ao mesmo tempo.

Trabalho. Filhos. Casa. Vida pessoal. Decisões. Responsabilidades.

Coisas que precisam ser resolvidas. Coisas que não podem esperar.

E chega uma hora em que alguma coisa acaba ficando para depois.

Não porque não seja importante.

Mas porque, simplesmente, não cabe tudo.

E eu tenho pensado muito sobre isso.

Sobre essa sensação de estar sempre tentando dar conta.

De lembrar de tudo. De organizar tudo. De antecipar tudo. De resolver antes mesmo que alguém perceba que precisava ser resolvido.

E quanto mais converso com outras mulheres, mais percebo que essa sensação está longe de ser só minha.

De certa forma, eu também virei parte dessa estatística.

A estatística das mulheres que trabalham, cuidam dos filhos, administram a casa, organizam a rotina da família e, ainda assim, terminam o dia com a sensação de que deixaram alguma coisa por fazer.

E talvez exista uma coisa importante aqui.

Nem sempre a sobrecarga está apenas no que fazemos.

Muitas vezes, ela está principalmente no que precisamos lembrar.

Não é só levar o filho ao médico.

É lembrar que precisa marcar a consulta.

Não é só comprar o material da escola.

É saber qual material precisa ser comprado, até quando, onde encontrar e lembrar de colocar na mochila.

Não é só ir ao aniversário.

É lembrar da data, comprar o presente, providenciar a roupa, confirmar a presença.

Não é só organizar a casa.

É perceber o que está faltando antes que falte.

Essa é uma carga que quase nunca aparece.

Mas pesa. E pesa muito.

Eu também sei que falo a partir de um lugar de privilégio.

Tenho ajuda em algumas áreas da minha vida.

Tenho recursos que muitas mulheres não têm.

E, ainda assim, às vezes me sinto completamente no limite.

Talvez seja justamente isso que me faça pensar ainda mais nas mulheres para quem essa conversa é muito mais séria.

Mães que não têm rede de apoio.

Que trabalham o dia inteiro fora de casa. Que criam filhos sozinhas. Que não têm com quem dividir as decisões. Que não podem simplesmente parar.

Existe uma frase conhecida que diz que é preciso uma aldeia para criar uma criança.

E talvez uma das grandes dificuldades da vida atual seja justamente essa:

muitas de nós estamos tentando criar filhos sem aldeia nenhuma.

As famílias estão mais espalhadas.

Os avós nem sempre estão por perto.

Os vizinhos mal se conhecem.

As rotinas são incompatíveis.

Cada casa tenta resolver tudo sozinha.

E, dentro desse “cada um por si”, muitas vezes sobra para a mulher ser a central de operações da família inteira.

Talvez o problema não seja que a gente não sabe equilibrar os pratos.

Talvez sejam pratos demais.

E talvez alguns deles nem devessem estar nas nossas mãos.

Por isso, se você está lendo isso e se reconheceu, eu não quero te dar mais uma lista de coisas para fazer.

Talvez você já tenha listas demais.

Mas quero te lembrar de uma coisa importante:

pedir ajuda não é sinal de incompetência.

Dividir responsabilidades não é favor.

Descansar também é necessidade.

E nem tudo precisa ser resolvido hoje.

Agora, se você está lendo isso e não vive essa realidade, talvez exista uma outra pergunta importante:

quem perto de você está tentando dar conta de tudo sozinha?

Pode ser sua irmã. Sua amiga. Sua mãe. Uma colega de trabalho.

Talvez ela não precise de uma grande solução.

Talvez precise de alguém que diga: “Eu busco as crianças hoje.” “Levo o jantar.” “Posso resolver isso para você.”

“Fico com eles uma hora.” “Eu cuido dessa parte.”

Porque existe uma diferença enorme entre dizer “se precisar de alguma coisa, me chama” e realmente tirar uma tarefa das mãos de alguém.

Quem está sobrecarregada muitas vezes também não tem energia para organizar a própria ajuda.

Talvez seja por isso que pequenas atitudes façam tanta diferença.

Uma mensagem. Uma carona. Uma refeição. Uma hora de companhia. Uma responsabilidade assumida sem que ela precise pedir.

No fim das contas, talvez a solução não seja ensinar mulheres a equilibrar melhor uma quantidade impossível de pratos.

Talvez seja começar a perguntar por que tantos deles continuam nas mãos de uma pessoa só.

E, principalmente, quem pode chegar um pouco mais perto e segurar alguns.

Porque ninguém deveria precisar dar conta de tudo sozinha.

Um abraço,

Andréa Leal.

andrealealfotografia

Eu sou Andréa Leal, e sempre achei importante que a minha fotografia falasse por mim.

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