Fui no show de Tiago Iorc, e me emocionei ao ouvir “tudo que a fé pode tocar”, pois me lembrei do meu pai, que não está mais aqui. Não veio uma lembrança específica, nenhuma cena, nenhuma data. Veio saudade. Daquelas que apertam porque fazem a gente perceber uma coisa muito simples: eu não posso mais ligar pra ele, marcar um café, ouvir a voz dele agora, dar um abraço.
Acho que algumas ausências ficam mais concretas nessas coisas pequenas. Nem sempre nas grandes datas, nos aniversários, nessas ocasiões em que a gente já espera sentir falta. Às vezes é só pensar: eu queria contar isso pra ele. Ou mostrar alguma coisa. Ou simplesmente encontrar pra tomar um café. E não dá.
Enquanto eu ouvia a música, me veio uma situação que aconteceu no estúdio há pouco tempo. Uma cliente entrou em contato pedindo todas as fotos que a gente tivesse do pai dela. Todas. Ela tinha feito um registro da família com a gente mais ou menos um ano atrás, na renovação dos votos do casamento, e o pai dela não gostava muito de fotografia.
Isso ficou na minha cabeça porque, provavelmente, naquele dia, aquelas fotos não pareciam tão importantes assim. Era o pai ali. Presente. Talvez até um pouco contrariado de estar sendo fotografado. Normal. A gente sempre acha que vai ter outra oportunidade. Outro almoço, outra comemoração, outra foto qualquer. Só que às vezes não tem.
E foi aí que essa história me pegou de verdade. Porque ela não estava procurando a foto perfeita. Ela queria o pai. O jeito dele. O rosto. Talvez uma expressão qualquer que, na época, ninguém tenha dado muita importância.
Depois que alguém vai embora, uma fotografia muda de peso. Ela deixa de ser só bonita ou feia, bem enquadrada ou não. Não substitui a pessoa, claro que não. Mas ajuda a lembrar de coisas que a memória, sozinha, começa a apagar sem pedir licença: o jeito de olhar, o sorriso, uma postura, até detalhes que pareciam pequenos demais pra guardar.
Eu trabalho com fotografia há anos e, mesmo assim, situações assim ainda mexem comigo. Talvez porque eu também saiba o que é procurar uma pessoa numa imagem e querer ficar ali mais um pouco.
Por isso eu insisto tanto em fotografar quem a gente ama, mesmo quando alguém diz que não gosta de foto. Não precisa ser toda hora. Não precisa transformar tudo em registro. Mas algumas imagens importam muito.
E a pior parte é que quase nunca dá pra saber quais serão essas enquanto a vida ainda está acontecendo.
Porque a gente nunca sabe qual fotografia, lá na frente, vai deixar de ser só uma fotografia e vai passar a significar muito mais.
Um abraço,
Andréa Leal.
