Eu passei anos tentando fazer fotografias melhores. Aprender luz, direção, enquadramento, edição. E tudo isso continua importando muito pra mim. Mas de um tempo pra cá eu comecei a desconfiar um pouco dessa busca pela perfeição. Hoje a gente consegue corrigir quase tudo: tirar uma pessoa do fundo, trocar um céu, ajustar roupa, pele, reconstruir uma parte da imagem. Em alguns casos, dá até pra criar uma cena inteira que nunca aconteceu. É impressionante. E, ao mesmo tempo, isso me fez prestar mais atenção no que eu realmente gosto numa fotografia.
Quase nunca é aquilo que está perfeito. É uma expressão que escapou, uma criança que começou a rir antes da hora, um pai que estava meio travado e por um segundo esqueceu da câmera, uma mãe tentando ajeitar alguma coisa e rindo porque já desistiu de controlar tudo. Essas coisas, que parecem pequenas na hora, são muitas vezes as que ficam.
Talvez por isso eu esteja pensando tanto nisso agora, justamente quando começo a imaginar o Natal deste ano no estúdio. Natal tem essa pressão de parecer bonito. Roupa certa, criança sorrindo, todo mundo no lugar, decoração impecável. Só que, sinceramente, eu não quero fazer um Natal em que a família só entre, sente e sorria. Não é isso que me interessa. Quero que aconteça alguma coisa ali. Que a criança tenha o que fazer, que os pais entrem na brincadeira, que exista movimento, reação, alguma coisa inesperada. Porque uma fotografia pode ser muito bonita e, ainda assim, não dizer quase nada. E outra pode ter uma mão fora do lugar, um cabelo bagunçado, alguém olhando pro lado, e carregar muito mais verdade.
Acho que é isso que a inteligência artificial, sem querer, está deixando ainda mais claro pra mim. Se ficou tão fácil fabricar uma imagem impecável, então talvez o que comece a valer mais seja justamente o que não foi fabricado: a relação, o gesto, a expressão, a história que realmente aconteceu ali.
Eu continuo querendo luz bonita, composição boa, cuidado, acabamento. Não abri mão de nada disso. Mas não quero chegar num ponto em que a fotografia fique tão corrigida que a pessoa desapareça. E talvez esse seja o ponto de partida do nosso Natal este ano: menos preocupação em fazer tudo parecer perfeito e mais vontade de criar alguma coisa que a família realmente viva.
Porque daqui a alguns anos, é bem possível que ninguém lembre se a roupa estava impecável.
Mas talvez lembre exatamente do que aconteceu naquele dia.
Um abraço,
Andréa Leal
