As marcas que ficam

Eu sempre gostei de cerâmica.

Aqui no estúdio ela foi entrando devagar. Primeiro uma peça. Depois outra. Algumas viraram presente para clientes. A nossa louça também foi feita pensando nas cores e no jeito daqui.

E eu nunca tinha parado muito para pensar no porquê disso.

Até ver que 19 de setembro era o Dia do Oleiro.

Acho que eu gosto porque a cerâmica não esconde totalmente quem fez.

Fica uma curva um pouco diferente. Uma marca. Uma textura. Uma pequena irregularidade que outra peça não vai ter. E isso me toca, porque eu não gosto muito de coisa sem vestígio.

Não gosto quando tudo parece perfeito a ponto de ninguém conseguir imaginar que houve uma mão, uma escolha, um erro, uma tentativa.

Talvez por isso eu também não goste de fotografias que poderiam ser de qualquer família.

Quando alguém entra no estúdio, eu não quero encaixar aquela pessoa numa fórmula que já funcionou antes.

Porque ninguém chega igual.

Tem criança que chega correndo. Outra não quer sair do colo. Tem mãe cansada. Tem pai desconfortável com a câmera. Tem bebê que muda completamente o ritmo do ensaio.

E é justamente aí que a fotografia começa. Não no que eu planejei, mas no que está acontecendo.

Acho que é isso que eu reconheço também numa peça feita à mão. Ela não tenta apagar completamente o processo, ela carrega um pouco dele.

Talvez por isso eu goste tanto de ter cerâmica espalhada pelo estúdio. Porque ela me lembra de uma coisa em que eu acredito de verdade: algumas coisas só ficam especiais quando ainda dá para perceber que alguém esteve ali

Um abraço,

Andréa Leal

andrealealfotografia

Eu sou Andréa Leal, e sempre achei importante que a minha fotografia falasse por mim.

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